O palco escuro esconde uma menina sentada ao piano, prestes a começar sua apresentação. Ela está nervosa, treme um pouco, mas com uma mão segura a outra. Respira fundo e solta aos pouquinhos. A ansiedade não passa. Ela vê os pais dos seus colegas chegarem. Os seus pais já estão na primeira fila. A câmera já está posicionada nas mãos de sua mãe. A professora faz um sinal de que em três toques ela começará. Ela faz um leve alongamento e estica os longos dedos. Passa a mão pela franja, ajeita o cabelo atrás da orelha. Aperta o laço do vestido de organza azul. Posiciona-se melhor na banqueta. Faz um plano mental de sua execução e de seus próximos passos após a apresentação. Uma trilha sonora começa em sua cabeça. No último toque ela segue o seu fluxo interior. As escalas saem dela e não do instrumento. No final da terceira parte, uma nota se distorce, a outra sai errada. Ela não consegue segurar as águas novas que fervem em seus olhos. O teclado é cúmplice do choro. O final é aplaudido, mas para ela não faz sentido. Ela se levanta, faz reverência a platéia. Sai do palco antes que as palmas cessem. Corre pela coxia até um canto isolado. O perigo de ser só alegria passou. Agora ela já é uma moça em que melancolia garoa de quando em vez.
sábado, 18 de setembro de 2010
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Silhuetas de um suburbano amor
Ele sorveu a sopa com modos rudes e fez uma pausa pra encher de novo a colher. No rádio, baixinho, Caetano pedia para ficar Odara. A mulher parou no meio da sala.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Um souvenir que não sorri
Há pessoas que não possuem o dom da felicidade. Parecem estar perenemente sofrendo de uma dor que não passa, de um sofrimento da alma que inunda quem a eles dirige um olhar. Não fazem questão de externar o sentimento, entretanto ele brota como samambaia no muro ou água na fonte. Alguns caminham de lado, suportando o peso da dor como se fossem adereços que não podem dispensar.
A foto está na minha frente, em cima de um aparador que num canto guarda as outras épocas dessa casa. O rosto de um homem que vejo é desbotado pelo tempo, mas mesmo se a fotografia tivesse sido revelada na hora, ela ainda guardaria essa tristeza. Seu rosto é perfeito: o nariz, o queixo, os olhos que conversam (e te perguntam como podes ser tão feliz), a boca que esboça um sorriso. É lindo, mas, repito, é triste.
Não sei bem o motivo para a tristeza, mas suponho que não seja por causa do dia que prenunciava chuva ou um desenlace amoroso. Creio que não saberia viver de outra forma. Ele é hipnotizante, intenso. Minha tia disse que ele é primo do meu avô. Talvez seja, reconheço o nariz da família. Pego o porta retrato que repousa em meio a sorrisos da família grande sentada na escada, dos outros primos do meu avô, moços ainda, montados em cavalos, com aparência atlética e jovial, das tias que seguram seus bebês, do tio renegado (e até ele sorri). Meu parente distante, agora colado ao meu peito me faz sentir que a felicidade pode ser um peso. Eu, contagiado, choro.
Minha avó entrou na sala e me disse agora que ele morreu faz tempo. Ela ainda era moça, mas as histórias a respeito dele rondam a família desde então. “Contam que num dia nublado de novembro ele sentou-se debaixo de uma figueira e esperou que a tarde descesse. A noite veio e ele, deitado sobre a terra, foi encontrado morto. Curiosamente rindo, talvez pela primeira vez.” Durante um átimo de segundo lamentei por não tê-lo conhecido.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Cleo, Clara.
- Tem! E rápido. Ah, cuidado com o terceiro degrau, a madeira está solta e você pode cair.
Se apoiando no corrimão carcomido, as mulheres foram subindo. Clara tirou seu sapato de salto estilete e foi descalça. A madeira rangia. No final da escadaria uma porta trancada.
- Clara, me dá sua presilha!
- Não vai estragar hein?
Cleo rodou, rodou na fechadura. Pouco depois a porta velha abria deixando a presença dos cupins no chão.
- Está tudo podre.
- Você não vai conseguir achar nada nesse escuro – Clara falou se escorando na parede com papel antigo que recendia a bolor.
- Se você me ajudar, fica mais fácil... – Cleo disse se agachando e olhando debaixo da cama.
Puxou uma caixa de madeira. Soprou. Tossiu. Tossiu.
Abriu e mal conteve seu susto ao encontrar um punhado de fotos velhas.
- Vamos embora?
- Vamos.
Conversaram por um tempo. Pareciam discutir.
Suas vozes foram ficando mais fracas. O som oco de um corpo caindo no chão acordou um cachorro na vizinhança que latiu renitente.
Na penumbra da janela de onde outrora se viam dois perfis, uma silhueta recortada na luz somiu no escuro.
A noite prosseguiu em silêncio.
domingo, 6 de setembro de 2009
Primaveras casuais
domingo, 14 de junho de 2009
Magô e o outro mundo
sexta-feira, 3 de abril de 2009
Banana light para macacas taradas
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Amar o perdido
Amar o perdido deixa confundido este coração... Adorava Drummond e “Memória” era o seu preferido poema. Não era de ferro como o itabirano, mas nem de longe lembrava a frágil menina dos tenros anos.
Era artista plástica. Escultora. Fazia, com uma freqüência intrigante, bailarinas. Rodopiando, bailando, voando, com movimentos perfeitos. Sempre de coque, pernas finas e vestidos floridos. Era realizada na profissão, com mostras em exposições que lhe rendiam louros.
Era casada e amava demais o marido. Deveras amava. Mal sabia que tudo em excesso é pernicioso. Ouvira maquinalmente, no casamento, as sábias palavras de Padre Antero, que entravam e saiam de seus ouvidos com velocidade ímpar:
- Meus filhos, não pequem pelo excesso – dizia o sacerdote e prosseguindo – até água benta, em excesso, afoga.
Ela, em total devaneio, criava suas esculturas, só lhe faltava material. Tinha um ciúme possessivo, sufocante. Ele não suportava mais. Era como um sapato apertado, um local fechado. Não se fazia esquecer, estava presente dia a dia. Chegou a segui-lo. Cheirava suas roupas e quando alguém ligava (mulher ou homem) falava que havia saído há pouco.
- Quem era? – ele perguntou
- Telemarketing – dizia ela com a naturalidade de um monge tibetano.
E marcando lugar, o ciúme foi crescendo, crescendo e como uma força estranha afastou os dois, empurrando um para fora da relação.
- Eu amava quem você era – disse o marido depois de uma briga acalorada.
- Você nunca me amou – ela revoltando-se.
- Você é que nunca me amou, eu sempre fui um joguete em suas mãos, uma bailarina...
Ela deixou escorrer um fio de lágrima que lhe cortou a face.
- Não me comovo – ele já saindo – tentei, mas não dá! Não dá!
- Renato, Renatoooo! – se jogando no chão, gritou em vão.
Pegando a mala e girando suavemente a maçaneta ele atira contra os sentimentos dela (inexistentes em sua opinião):
- Adeus, Marcela e um feliz ano novo. – Ele saiu na chuva e fez sinal para um táxi. Nem olhou para trás.
Ah... Esqueci de contar que o desenlace ocorreu dia 30 de dezembro. Chovia... Ela desceu ao ateliê, concluiu uma bailarina suspensa por um bailarino. Escreveu um bilhete. Colocou-o embaixo da escultura. Com muita serenidade procurou na gaveta, entre calcinhas, o que queria. Abraçada a uma foto do casamento fez dois furos, e caindo, já delirando, gritou o nome do amado.
No bilhete lia-se: “Amar o perdido deixa confundido este coração”.