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sábado, 18 de setembro de 2010

Garoa e neblina

O palco escuro esconde uma menina sentada ao piano, prestes a começar sua apresentação. Ela está nervosa, treme um pouco, mas com uma mão segura a outra. Respira fundo e solta aos pouquinhos. A ansiedade não passa. Ela vê os pais dos seus colegas chegarem. Os seus pais já estão na primeira fila. A câmera já está posicionada nas mãos de sua mãe. A professora faz um sinal de que em três toques ela começará. Ela faz um leve alongamento e estica os longos dedos. Passa a mão pela franja, ajeita o cabelo atrás da orelha. Aperta o laço do vestido de organza azul. Posiciona-se melhor na banqueta. Faz um plano mental de sua execução e de seus próximos passos após a apresentação. Uma trilha sonora começa em sua cabeça. No último toque ela segue o seu fluxo interior. As escalas saem dela e não do instrumento. No final da terceira parte, uma nota se distorce, a outra sai errada. Ela não consegue segurar as águas novas que fervem em seus olhos. O teclado é cúmplice do choro. O final é aplaudido, mas para ela não faz sentido. Ela se levanta, faz reverência a platéia. Sai do palco antes que as palmas cessem. Corre pela coxia até um canto isolado. O perigo de ser só alegria passou. Agora ela já é uma moça em que melancolia garoa de quando em vez.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Silhuetas de um suburbano amor

Ele sorveu a sopa com modos rudes e fez uma pausa pra encher de novo a colher. No rádio, baixinho, Caetano pedia para ficar Odara. A mulher parou no meio da sala.

– Gostou da sopa, meu bem?

Ele continuou mecanicamente o que fazia. Moveu um ou dois músculos do rosto.

– Tá, tá bom, mas sopa a gente não pode conversar enquanto toma, senão esfria.

Ela arqueou as sobrancelhas e passeou vagamente o olhar pela sala pobre e pouco decorada. Desligou o rádio. Ligou a TV e deteve seu olhar na Ana Maria Braga que fazendo a reflexão do dia disse em tom de conselho para as amigas donas-de-casa: “não despreze seus sentimentos. Podem ser a única coisa que você pode possuir”. Ela achou a frase impactante. Era como se um raio dentro dela mostrasse que ela podia ser feliz.

– E agora, porque você está me olhando com essa cara? – Ele disse com impaciência.

– Estou observando que você está ficando mais bonito, mais homem, sabe? Passou a mão pelo cabelo como se fosse desembaraçá-lo. E sentou-se junto dele passando a mão pelo seu peito.

– Mas que história é essa? Tá parecendo uma rameira. Que isso? O cara trabalha a noite toda e quando chega em casa a mulher ainda fica fazendo tipo. Vai procurar uma panela. Essa é boa! – Falou empurrando a mulher que fez dos olhos dois riscos pretos. Apertou as pálpebras para segurar o choro. – Vai a feira, vai pro raio que a parta, mas some, deixa eu dormir em paz.

Ela saiu para comprar as coisas que faria para o almoço. No mesmo programa a apresentadora radiante ensinou a fazer risoto de gorgonzola e filé. Antes passou na padaria para garantir o lanche da tarde. O padeiro de modos galantes perguntou se ela tinha mudado a cor dos cabelos.

– Mudei sim, ficou bom? Meu marido nem reparou.

– Como pode, uma mulher bonita dessas! Depois não sabe porque perde para concorrência. – Vendo que tinha falado demais ficou pejado e, tentando consertar o erro, ofereceu um sonho. – está quentinho, eu mesmo que fiz.

Ela aceitou o sonho e o convite dele para tomar um sorvete em frente à padaria. O Sol não tinha segredos e inundava a ruazinha. A brisa batia leve, ao longe um redemoinho se formava. Os relógios da torre informavam as horas. Naquele dia não teve almoço.

Nem nos que se seguiram.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Um souvenir que não sorri

Há pessoas que não possuem o dom da felicidade. Parecem estar perenemente sofrendo de uma dor que não passa, de um sofrimento da alma que inunda quem a eles dirige um olhar. Não fazem questão de externar o sentimento, entretanto ele brota como samambaia no muro ou água na fonte. Alguns caminham de lado, suportando o peso da dor como se fossem adereços que não podem dispensar.

A foto está na minha frente, em cima de um aparador que num canto guarda as outras épocas dessa casa. O rosto de um homem que vejo é desbotado pelo tempo, mas mesmo se a fotografia tivesse sido revelada na hora, ela ainda guardaria essa tristeza. Seu rosto é perfeito: o nariz, o queixo, os olhos que conversam (e te perguntam como podes ser tão feliz), a boca que esboça um sorriso. É lindo, mas, repito, é triste.

Não sei bem o motivo para a tristeza, mas suponho que não seja por causa do dia que prenunciava chuva ou um desenlace amoroso. Creio que não saberia viver de outra forma. Ele é hipnotizante, intenso. Minha tia disse que ele é primo do meu avô. Talvez seja, reconheço o nariz da família. Pego o porta retrato que repousa em meio a sorrisos da família grande sentada na escada, dos outros primos do meu avô, moços ainda, montados em cavalos, com aparência atlética e jovial, das tias que seguram seus bebês, do tio renegado (e até ele sorri). Meu parente distante, agora colado ao meu peito me faz sentir que a felicidade pode ser um peso. Eu, contagiado, choro.

Minha avó entrou na sala e me disse agora que ele morreu faz tempo. Ela ainda era moça, mas as histórias a respeito dele rondam a família desde então. “Contam que num dia nublado de novembro ele sentou-se debaixo de uma figueira e esperou que a tarde descesse. A noite veio e ele, deitado sobre a terra, foi encontrado morto. Curiosamente rindo, talvez pela primeira vez.” Durante um átimo de segundo lamentei por não tê-lo conhecido.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cleo, Clara.

- Eu tenho que subir mesmo, Cleo? Irrompeu o silêncio da sala a voz suave de Clara.

- Tem! E rápido. Ah, cuidado com o terceiro degrau, a madeira está solta e você pode cair.

Se apoiando no corrimão carcomido, as mulheres foram subindo. Clara tirou seu sapato de salto estilete e foi descalça. A madeira rangia. No final da escadaria uma porta trancada.

- Clara, me dá sua presilha!

- Não vai estragar hein?

Cleo rodou, rodou na fechadura. Pouco depois a porta velha abria deixando a presença dos cupins no chão.

- Está tudo podre.

- Você não vai conseguir achar nada nesse escuro – Clara falou se escorando na parede com papel antigo que recendia a bolor.

- Se você me ajudar, fica mais fácil... – Cleo disse se agachando e olhando debaixo da cama.

Puxou uma caixa de madeira. Soprou. Tossiu. Tossiu.

Abriu e mal conteve seu susto ao encontrar um punhado de fotos velhas.

- Vamos embora?

- Vamos.

Conversaram por um tempo. Pareciam discutir.

Suas vozes foram ficando mais fracas. O som oco de um corpo caindo no chão acordou um cachorro na vizinhança que latiu renitente.

Na penumbra da janela de onde outrora se viam dois perfis, uma silhueta recortada na luz somiu no escuro.

A noite prosseguiu em silêncio.

domingo, 6 de setembro de 2009

Primaveras casuais

"(...) vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação (...)”.

Belchior


Ah! Que saudade que eu tenho de Eulália... Como era graciosa em suas formas ainda pouco reveladas naqueles vestidos de flores minúsculas. Sua aura cândida de menina interiorana era fronteiriça. Seu perfume de alfazema causava-me frêmitos da flor da idade. Quando ia passar os finais de semana em São Luiz do Paraitinga ela me fazia companhia. Sua avó estendia a roupa no quintal e entre os lençóis ao vento brincávamos de esconde-esconde. Ela era bem mais nova que eu, mas isso não era empecilho para nossas brincadeiras. Nadávamos no Paraibuna...

Agora que bato a teclas da máquina de escrever lembro da sua meninice que eu vi desaparecer. No dia em que ela fez anos dei-lhe um livrinho do Monteiro Lobato. Ela leu e releu e depois pediu mais um. No dia em que cheguei com o outro livro ela estava super ansiosa e nem queria saber de brincar, só de ler. Pior do que isso: não queria saber de mim! Levantei o livro acima da minha cabeça e por minutos deixei-a pulando em volta. Depois deixei pender os braços. Isso sempre se repetia. Um dia propus uma troca: ela ganhava os presentes, em troca eu tocava-lhe os lábios, os cabelos - confesso que havia nisso um prazer que na época eu considerava o maior de todos - e ela concordou.
Todo fim de semana era um presente e, enquanto ela lia ou se maquilava ou escrevia ou comia, eu deslizava delicadamente a mão pelos seus cabelos, pela sua boca, chegava a passar - sem que ela percebesse - pelos seus peitos e rapidamente subia até sua face.

No dia do meu aniversário docemente escorreguei a mão ao longo de seu tronco, sentindo a maciez de sua pele de moça nova - e como se conhecesse bem aquele caminho coloquei a mão sobre seu sexo, vi nitidamente o momento em que ela interrompeu a leitura. Paralisou-se - e enrijecendo meus dedos, definindo meu afago, sentir abrir aquela flor oculta, desnudando completamente o mistério da natureza. Subi a mão, voltando a passear livremente pelo seu talhe. Com uma mão acariciava seus olhos e com a outra segurava-lhe pelas costas. Venci-a com o poder do meu carinho.

Espaçadamente ela deu um grito que se assemelhava a um riso moço que ressoava no vento. Era a música do momento.

Amei-a. Numa única fusão de corolas decepadas no auge do seu esplendor descobri o que era o amor...

Dizer que nunca mais a vi seria exagero, mas a Eulália dos tenros anos e pudores morreu para sempre. Numa única florada senti o seu perfume misturar-se ao meu e sumir nas primaveras dos anos.

domingo, 14 de junho de 2009

Magô e o outro mundo

Magô tem oito anos e sonha em conhecer outro mundo. Esse daqui ela já se cansou, antes mesmo de desbravar. É poluição, gente mal educada, violência, problemas, problemas e... problemas. No seu colégio ela deixa os professores loucos com as suas perguntas mirabolantes.

- Em outro mundo faz frio? Acha que eu devo levar casaco o ir de biquíni? E a comida? Já vi astronauta com uns tubinhos de comida prática, mas será que lá eu vou sentir fome? E sede? A água vai congelar assim que eu atravessar o portal desse mundo ou vai evaporar?

Ela não dava tempo para respostas e uma ia atropelando a outra, de tal modo que quando o professor pensava em responder a primeira ela já queria saber da última. Conseqüência disso: ninguém solucionava suas dúvidas e elas iam crescendo cada vez mais. Deram a ela a sugestão de anotá-las. Mas uma atrapalhava a outra e não saia nada no papel. Seus amigos não conseguiam brincar com ela, pois toda vez em que se aproximavam ela dizia que estava se preparando para a partida.

Um dia na saída da aula ela correu para encontrar com a sua mãe, do outro lado da rua, mas no meio do caminho ela desapareceu. Surgiu num lugar diferente, úmido, rugoso.

E ela meio tonta nem perguntou onde estava e já começou a comemorar o seu teletransporte. Viu alguma coisa no escuro.

-Aurt rourew treserhy ... Câmbio?

- Que língua é essa?

- Você fala minha língua? Que bom. Facilita um pouco. Então, vamos passear pelo mundo outro que agora e meu também. Vamos!

Puxou o ser pela mão a correu por um espaço apertadinho. Procurou um raiozinho de luz que fosse, mas não encontrou. Tudo escuro e frio. Frio. Pôde vivenciar todas as suas perguntas. – 

Onde estão as cores desse mundo? Qual mundo é? O da Lua, o do centro de Plutão? Já sei: o dos anéis de Saturno!

Tirando uma capa que lhe cobria o rosto, o ser se revelou um homem, igualzinho a Magô, com braços, pernas, cabeça e dois olhos que exprimiam uma dúvida sem fim.

- Você é humano?

- Lógico, minha pequena. Como você chegou aqui?

- Não sei, acho que o meu desejo se concretizou, sempre fui louca para mudar de plano. Hoje eu consegui.

O homem piscava com uma serenidade ímpar e, escutando tudo o que Magô dizia, sussurrou:

- Não foi dessa vez.

- Que você disse, indagou Magô.

- Nada não, meu bem.

Passearam por caminhos tortuosos. Volta e meia se encolhiam e ficavam com a impressão de terem os pés molhados. Ela viu uma espécie de rato e nem teve medo.

- Coisas do outro mundo não fazem mal a ninguém, disse como se expressasse a mais profunda certeza do mundo. Desse ou do outro.

Caminharam até um espaço onde um filete de luz ofuscava os olhos dos transeuntes extra-intra-mundanos. Subiram uma escada e quando a emoção ia ganhando força alguém girou uma tampa e gritou que o trabalho havia acabado. O homem subiu rapidamente as escadas e Magô então descobriu que se tratava de um bueiro. Saiu cabisbaixa com a descoberta e quando voltou para casa já era escuro. Na esquina do seu quarteirão viu uma luz que passava de um ponto a outro no céu e teve suas esperanças reavivadas. Mal sabia ela que era a lanterna do seu pai que quase morreu de preocupação e, apavorado com a situação, saiu a sua procura.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Banana light para macacas taradas

É de novo que se torce o pepino, no caso de Euzébia teria que ser a banana, mas não torceram. Deram-na amassada, depois com aveia, inteira, doce, bala e admiração pela fruta. Alba paradisiacas musa se pudesse tatuava na pele a veneração, porque na alma a tinta não desbotava por incrível que pareça, ela não enjoava. Diziam-lhe: menina você morrer de tanto comer banana! Entretanto ela não se importava. Toda mulher adora rosas, ela da caturra a nanica não rejeita. Episódios como o furto de um cacho, de uma penca eram comuns. Para ela não fazia mal, mas o seu corpo começou a sentir os efeitos da ingestão exagerada. Engordou de modo exorbitante. O médico lhe deu a sentença: ou para de comer ou morre. Ela pronta para se jogar da torre da igreja ouve gritos que pedem, suplicam para ela não se jogar. Ouve que a mãe esta lá embaixo, os amigos todos imbuídos na causa, megafone em punho, o prefeito, os moradores já acompanhavam pelo rádio a história da moça tarada pro lado de banana, eles já sabiam detalhes da sua vida, entrevistas, enfim, a cidade parou. Eis que sua vista turva de tanto chorar enxerga um cartaz que em letras garrafais dá-lhe a esperança para levar a vida até o fim. Nele lê-se: Não pule, menina, já inventaram bananas lights para macacas taradas!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Amar o perdido



Amar o perdido deixa confundido este coração... Adorava Drummond e “Memória” era o seu preferido poema. Não era de ferro como o itabirano, mas nem de longe lembrava a frágil menina dos tenros anos.

Era artista plástica. Escultora. Fazia, com uma freqüência intrigante, bailarinas. Rodopiando, bailando, voando, com movimentos perfeitos. Sempre de coque, pernas finas e vestidos floridos. Era realizada na profissão, com mostras em exposições que lhe rendiam louros.

Era casada e amava demais o marido. Deveras amava. Mal sabia que tudo em excesso é pernicioso. Ouvira maquinalmente, no casamento, as sábias palavras de Padre Antero, que entravam e saiam de seus ouvidos com velocidade ímpar:

- Meus filhos, não pequem pelo excesso – dizia o sacerdote e prosseguindo – até água benta, em excesso, afoga.

Ela, em total devaneio, criava suas esculturas, só lhe faltava material. Tinha um ciúme possessivo, sufocante. Ele não suportava mais. Era como um sapato apertado, um local fechado. Não se fazia esquecer, estava presente dia a dia. Chegou a segui-lo. Cheirava suas roupas e quando alguém ligava (mulher ou homem) falava que havia saído há pouco.

- Quem era? – ele perguntou

- Telemarketing – dizia ela com a naturalidade de um monge tibetano.

E marcando lugar, o ciúme foi crescendo, crescendo e como uma força estranha afastou os dois, empurrando um para fora da relação.

- Eu amava quem você era – disse o marido depois de uma briga acalorada.

- Você nunca me amou – ela revoltando-se.

- Você é que nunca me amou, eu sempre fui um joguete em suas mãos, uma bailarina...

Ela deixou escorrer um fio de lágrima que lhe cortou a face.

- Não me comovo – ele já saindo – tentei, mas não dá! Não dá!

- Renato, Renatoooo! – se jogando no chão, gritou em vão.


Pegando a mala e girando suavemente a maçaneta ele atira contra os sentimentos dela (inexistentes em sua opinião):

- Adeus, Marcela e um feliz ano novo. – Ele saiu na chuva e fez sinal para um táxi. Nem olhou para trás.

Ah... Esqueci de contar que o desenlace ocorreu dia 30 de dezembro. Chovia... Ela desceu ao ateliê, concluiu uma bailarina suspensa por um bailarino. Escreveu um bilhete. Colocou-o embaixo da escultura. Com muita serenidade procurou na gaveta, entre calcinhas, o que queria. Abraçada a uma foto do casamento fez dois furos, e caindo, já delirando, gritou o nome do amado.

No bilhete lia-se: “Amar o perdido deixa confundido este coração”.