sexta-feira, 30 de julho de 2010

Silhuetas de um suburbano amor

Ele sorveu a sopa com modos rudes e fez uma pausa pra encher de novo a colher. No rádio, baixinho, Caetano pedia para ficar Odara. A mulher parou no meio da sala.

– Gostou da sopa, meu bem?

Ele continuou mecanicamente o que fazia. Moveu um ou dois músculos do rosto.

– Tá, tá bom, mas sopa a gente não pode conversar enquanto toma, senão esfria.

Ela arqueou as sobrancelhas e passeou vagamente o olhar pela sala pobre e pouco decorada. Desligou o rádio. Ligou a TV e deteve seu olhar na Ana Maria Braga que fazendo a reflexão do dia disse em tom de conselho para as amigas donas-de-casa: “não despreze seus sentimentos. Podem ser a única coisa que você pode possuir”. Ela achou a frase impactante. Era como se um raio dentro dela mostrasse que ela podia ser feliz.

– E agora, porque você está me olhando com essa cara? – Ele disse com impaciência.

– Estou observando que você está ficando mais bonito, mais homem, sabe? Passou a mão pelo cabelo como se fosse desembaraçá-lo. E sentou-se junto dele passando a mão pelo seu peito.

– Mas que história é essa? Tá parecendo uma rameira. Que isso? O cara trabalha a noite toda e quando chega em casa a mulher ainda fica fazendo tipo. Vai procurar uma panela. Essa é boa! – Falou empurrando a mulher que fez dos olhos dois riscos pretos. Apertou as pálpebras para segurar o choro. – Vai a feira, vai pro raio que a parta, mas some, deixa eu dormir em paz.

Ela saiu para comprar as coisas que faria para o almoço. No mesmo programa a apresentadora radiante ensinou a fazer risoto de gorgonzola e filé. Antes passou na padaria para garantir o lanche da tarde. O padeiro de modos galantes perguntou se ela tinha mudado a cor dos cabelos.

– Mudei sim, ficou bom? Meu marido nem reparou.

– Como pode, uma mulher bonita dessas! Depois não sabe porque perde para concorrência. – Vendo que tinha falado demais ficou pejado e, tentando consertar o erro, ofereceu um sonho. – está quentinho, eu mesmo que fiz.

Ela aceitou o sonho e o convite dele para tomar um sorvete em frente à padaria. O Sol não tinha segredos e inundava a ruazinha. A brisa batia leve, ao longe um redemoinho se formava. Os relógios da torre informavam as horas. Naquele dia não teve almoço.

Nem nos que se seguiram.

A arte em si

Quando eu falo de poesia, não é apenas da poesia que nem sempre encontramos no poema. Falo do fenômeno poético de natureza epifânica, reveladora, que confere a uma obra de arte o estatuto de obra de arte, pode ser escultura, dança, cinema, e literatura. Toda arte se justifica pela poesia que contém. Se não tem poesia não é obra de arte. A obra verdadeira é sempre nova, não cansa, porque traz em si mesma algo que não lhe pertence, nem ao seu autor. Vem por meio natural, por meio da beleza – não de boniteza, mas sim da forma – que é natural.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Um souvenir que não sorri

Há pessoas que não possuem o dom da felicidade. Parecem estar perenemente sofrendo de uma dor que não passa, de um sofrimento da alma que inunda quem a eles dirige um olhar. Não fazem questão de externar o sentimento, entretanto ele brota como samambaia no muro ou água na fonte. Alguns caminham de lado, suportando o peso da dor como se fossem adereços que não podem dispensar.

A foto está na minha frente, em cima de um aparador que num canto guarda as outras épocas dessa casa. O rosto de um homem que vejo é desbotado pelo tempo, mas mesmo se a fotografia tivesse sido revelada na hora, ela ainda guardaria essa tristeza. Seu rosto é perfeito: o nariz, o queixo, os olhos que conversam (e te perguntam como podes ser tão feliz), a boca que esboça um sorriso. É lindo, mas, repito, é triste.

Não sei bem o motivo para a tristeza, mas suponho que não seja por causa do dia que prenunciava chuva ou um desenlace amoroso. Creio que não saberia viver de outra forma. Ele é hipnotizante, intenso. Minha tia disse que ele é primo do meu avô. Talvez seja, reconheço o nariz da família. Pego o porta retrato que repousa em meio a sorrisos da família grande sentada na escada, dos outros primos do meu avô, moços ainda, montados em cavalos, com aparência atlética e jovial, das tias que seguram seus bebês, do tio renegado (e até ele sorri). Meu parente distante, agora colado ao meu peito me faz sentir que a felicidade pode ser um peso. Eu, contagiado, choro.

Minha avó entrou na sala e me disse agora que ele morreu faz tempo. Ela ainda era moça, mas as histórias a respeito dele rondam a família desde então. “Contam que num dia nublado de novembro ele sentou-se debaixo de uma figueira e esperou que a tarde descesse. A noite veio e ele, deitado sobre a terra, foi encontrado morto. Curiosamente rindo, talvez pela primeira vez.” Durante um átimo de segundo lamentei por não tê-lo conhecido.

domingo, 11 de julho de 2010

Dicionários não dizem tudo

Umedeceu a ponta do dedo. Passeou o olhar pela página com uma calma tibetana. Como um pássaro que entra pela janela sem motivo, uma palavra perturbou a sua paz. Na sua face surgiu uma interrogação, um levantar de sobrancelha, um esgar de incompreensão. A leitura que até então fluía é interrompida. Ele estacou naquela palavra que não lhe dizia nada, mas, no momento, era a razão de sua vida. Tinha que decifrar aquela Esfinge que no deserto de letrinhas miúdas o ameaçava.

Tentou ir pelo contexto, pelas experiências passadas, pela numerologia, por dedução. Nada. Nada lhe dava coragem para seguir adiante. “Pode ser isso, ou não”. Repetia quase delirante. A palavra – imóvel – era como dois olhos de gato na escuridão. Perseguia-o, mas não se revelava. Arrependeu-se de não ter comprado um dicionário para lançar mão em situações parecidas. “Amanhã eu compro”. Passou uma marca texto fosforescente na palavra. Ela, marcada, não iria fugir.

O primeiro sinal da noite anterior foi ao acordar. Ficou parado, olhando para sua mulher por um quarto de hora. Saiu da cama felinamente. Sem fazer o mínimo ruído tomou banho, se trocou com dificuldade. Em pé, comeu pão sem manteiga e tomou café num pires, como um gato.

Na rua, ficou perdido a caminho do trabalho. Fazia anos que metodicamente seguia pelas mesmas ruas. Os meninos de rua que ele encontrava pelo caminho recebiam todos os dias moedinhas de um real que ele deixava no porta-luvas para esse fim. Naquele dia, ele passou reto. Furou o sinal vermelho. Chegou ofegante na redação. Subiu os andares pela escada, para evitar encontros. Não podia mais ignorar tais fatos. Algo muito estranho estava acontecendo. Ligou para um médico amigo. “Estou me esquecendo das palavras”, ele disse baixinho para que os colegas não o ouvissem. Posso ir aí agora? O médico assentiu. Ele saiu tropeçando nas pessoas, em total desalinho. A gravata frouxa lhe emprestava ares de clown.

Doutor, eu sei que isso parece loucura, mas é verdade. Só consegui falar com você porque fiquei ensaiando antes. Insistiu e tirou do bolso da camisa o rascunho da conversa. “Preencha essa ficha enquanto eu visto a minha luva”, disse o médico resmungando uma queixa inaudível. Doutor, eu não sei mais meu nome, vou conferir na carteira de identidade. Falou e sua voz parecia sair descompassada, ora feminina ora grave. O médico fez todos os procedimentos que estavam ao seu alcance, examinou-lhe o tórax, as costas, a boca. Não havia nada de anormal. “Isso deve ser estresse, sua vida anda muito agitada”. Saiu do consultório com um ansiolítico.

Na volta para casa não hesitou, deixou o carro no estacionamento do consultório e pegou um táxi. “Pra onde vamos?”, perguntou o motorista com um palito na boca e jeito de quem se faz amigo. Pra minha casa. O taxista mirou o retrovisor e pediu o endereço. Ele passou o celular e pediu que ele ligasse para sua casa, sua mulher iria lhe guiar. A mulher pagou a corrida, levou-o para dentro e na cama ele esperou pelo remédio. Adormeceu.

Quando acordou emitiu uns grunhidos incognoscíveis. Seus olhos vacilavam no foco. Não sabia onde estava e muito menos quem era aquela mulher jovem e bonita, mas com um quê de tristeza no olhar que lhe desnudava. Ele estava nu, embora vestido. Sentia vergonha, como se sua alma fosse transparente e todos pudessem ver seus pensamentos escorrendo feito mel pelo seu corpo. Talvez escorressem mesmo, porque sua mulher entendeu o que estava fazendo pulsar as fibras mais íntimas de seu coração. Sumiu de sua vista e quando voltou trazia um pesado livro. Lembrou-se de sua professora do jardim: “o mundo está todo dentro do dicionário”. A lembrança, em meio à bruma do passado o impeliu a abrir o coletivo de palavras. De súbito foi retirado do seu estado de coma. O dedo parado em cima da palavra trouxe de novo a paz. Seu léxico se atualizou na sua mente. Ele voltou à normalidade e com um abraço de anjo acolhedor disse no ouvido da sua amada a palavra que encerrava todas.

A mais bela verdade do mundo.

sábado, 10 de julho de 2010

A emoção não deixava soar claro

A interpretação é brilhante, muito real. BRAVO! Com uma cimitarra, ele encerra fatidicamente a história do seu personagem. Oh! A plateia grita! O corpo, no centro do palco, permanece iluminado enquanto as palmas esquentam aquela noite fria.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Espelho

Vejo-me tão belo.
Invertido e equidistante
Da realidade.
A minha face – tela surreal –
Espia-me de lado
Quando me penteio.
Essa parte é minha,
Reconheço-me e esperneio.
Não sei por que ajo assim
Nesse lago profundo eu não sou feio.

Contrasto esse rosto que dizem ser meu,
Dou um salto rumo ao lago,
Tudo branco
Logo depois, vermelho.
Agora sim não me reconheço.
Questão de tempo.
Tudo tem um recomeço.

sábado, 12 de junho de 2010

Fora de foco

Passeou o olhar pela sala até se deter no pequeno anjo de cristal. Estendeu a mão.

Tão frágil e tão humano. Parece um homem, porque os homens são feitos até de cristal, mas são frágeis como anjos que temem descer do céu e vagar pela Terra. Situação parecida quando eu era criança e não queria abandonar meu lugar no esconde-esconde, mesmo sabendo que se esqueceriam de mim. Você brincava de esconde-esconde, Fernanda?

Ela molhou delicadamente o pincel na tinta vermelha. Limpou o excesso. Deu dois toques minuciosos na tela. Pintava uma paisagem morta.

O que disse?

Ele não respondeu. Ficou olhando para tela que ela estava construindo.

– Como é bonito... Posso sentir?

Ela limpou o pincel na água que lentamente foi se tingindo de vermelho.

– Não está pronto ainda – num gesto atarantado perguntou. – Como assim sentir?

– Assim como eu sinto as pessoas sem tocá-las. Elas só têm que permitir, porque eu não consigo ser sensível com quem não deixa. – Baixou a cabeça como se quisesse chorar.

– Espera eu terminar e aí você sente... – Fez um meneio de cabeça.

Ela pintava e de soslaio ia acompanhando seus movimentos.

– Posso fotografar?

– Pode – respondeu para se ver livre das perguntas.

Ele se levantou e foi com as mãos na boca procurar a câmera. Esbarrou na mesa de centro e desviou o anjo da sua posição inicial. O telefone tocou e num recorte da conversa ela reclamou da doença de Augusto.

– Não suporto mais. A cada dia a doença do Augusto atinge graus mais elevados. Teve um dia em que ele repetiu sem parar Fernanda, Fernanda, Fernanda, Fernanda. Eu estou enlouquecendo junto dele.

Augusto voltou para sala e esbarrou novamente na mesa. Dessa vez o anjo tombou no chão e se partiu em mil caquinhos. Ela murmurou um “ah, não!”. Ele, como em um ritual, tirou o sapato e começou a pisar os cacos.

– O que é isso? Para já! Para, para!

– Eu mereço. É minha punição por ter feito isso.

O pé minando sangue foi tingindo o tapete. Ela conseguiu afastá-lo por um instante.

– Eu vou fazer você pintar paisagens vivas de novo! Eu não vou deixar você morrer. Eu vou te salvar. – ele disse convulso.

Ela sem entender o que despertou a crise tentou acalmá-lo. Em vão. Augusto, num salto de felino, subiu na mesa e tomou impulso. Saltou pela janela do quinto andar.

Ela limpou a tela e saiu desesperada.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cleo, Clara.

- Eu tenho que subir mesmo, Cleo? Irrompeu o silêncio da sala a voz suave de Clara.

- Tem! E rápido. Ah, cuidado com o terceiro degrau, a madeira está solta e você pode cair.

Se apoiando no corrimão carcomido, as mulheres foram subindo. Clara tirou seu sapato de salto estilete e foi descalça. A madeira rangia. No final da escadaria uma porta trancada.

- Clara, me dá sua presilha!

- Não vai estragar hein?

Cleo rodou, rodou na fechadura. Pouco depois a porta velha abria deixando a presença dos cupins no chão.

- Está tudo podre.

- Você não vai conseguir achar nada nesse escuro – Clara falou se escorando na parede com papel antigo que recendia a bolor.

- Se você me ajudar, fica mais fácil... – Cleo disse se agachando e olhando debaixo da cama.

Puxou uma caixa de madeira. Soprou. Tossiu. Tossiu.

Abriu e mal conteve seu susto ao encontrar um punhado de fotos velhas.

- Vamos embora?

- Vamos.

Conversaram por um tempo. Pareciam discutir.

Suas vozes foram ficando mais fracas. O som oco de um corpo caindo no chão acordou um cachorro na vizinhança que latiu renitente.

Na penumbra da janela de onde outrora se viam dois perfis, uma silhueta recortada na luz somiu no escuro.

A noite prosseguiu em silêncio.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Tom Zé

Tom Zé subiu ao palco com um pouco de atraso, nada muito grande. Foi até animador para receber o mais inventivo cantor, compositor e arranjador do Brasil. Ele é anunciado, sobe ao palco, mas volta anunciado por ele mesmo. O público, fingindo não o ter visto, aplaude calorosamente. De megafone em punho ele vai chamando os músicos da sua banda que vão tomando seus lugares. Ao final faz uma brincadeira dizendo que aquela era banda para tocar no FITO [Festival Internacional de Objetos]. Começa cantando Fliperama e depois segue com grandes sucessos como Ogodô, João nos tribunais, Síncope Jãobim, tudo com muita criatividade, sua marca registrada. Finaliza fazendo sua performace com os esmeris, deixando a plateia boquiaberta com a sonoridade dos agogôs sendo "polidos". Ao término da apresentação ele volta logo em seguida pra fazer o bis e justifica: "Eu sei como funciona esses protocolos, vamos fazer logo que tem gente que quer dormir cedo".

*Tom Zé se apresentou com sua Banda dia 08 de maio na Serraria Souza Pinto dentro do Festival Internacional de Objetos que passou por Belo Horizonte.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Em definitivo

O melhor do mundo
seria eu
seria sua metade Calcanhotto
mas você não é inteiro
e eu não sou o que você pensa. 

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Enciclopédias sempre pesam na bagagem

Agora era tarde para voltar atrás. Estava muito determinada e uma reviravolta nas suas determinações representaria uma frustração por toda vida. Com uma calma de quem está fazendo a coisa certa ela abre uma pasta de couro marrom e no fundo falso coloca uma faca de aço frio e iridescente. Ao encostar-se a uma moeda, faz o barulho do encontro entre iguais. Era sete da manhã e o calor já era insuportável. “País tropical com calor senegalês”, resmungou em meio de um bocejo. Tomou café da manhã em pé e enquanto isso seu gato – Trevisan – enrolava o rabo na sua perna. Ele era sua única companhia em tempos tão difíceis.

Ela ganha a rua e, mesmo atrasada para pegar a lotação, não corre. Prendera o cabelo porque já estava transpirando. O Sol com seus raios convidativos assediava as arvorezinhas das ruas que ela via pela janela. A manhã era muito agradável e só não seria melhor porque a temperatura era alta para o começo do dia. Quando foi descer, a barra do vestido vinho prendeu na porta e, sem paciência para tirar, deu um puxão que rasgou até a altura dos joelhos. “Melhor, hoje está muito quente. Nada me prende” - falou rindo.

No prédio cumprimentou o porteiro que falou sem parar:

- Bom dia!

- Bom dia!

- Calor hoje, não?

- É.

- O patrão já subiu e perguntou pela senhora.

- É mesmo?

- E ele tá com uma cara daquelas...

- Hoje ele vai ficar calmo... Tem carta pra mim?

- Não, tem não – enquanto falava revirava uma caixinha de correspondências – se chegar eu mando lá em cima.

- Está certo então.

- Bom trabalho.

Ao chamar o elevador vê uma moça que era estagiária, e lembra de como começou na empresa. “Santo Deus, eu era uma menina...” Vai sozinha no elevador até o quinto andar, no sexto um rapaz sem uniforme entra falando ao celular:

- Ela também foi assediada? Não acredito! Esse seu Varella dá de cima de todas as moças dessa repartição! Promete vida boa pra todas, né?... Só não dá bola pra mim! – deu uma longa gargalhada e parou no oitavo andar. No nono ela retoca a maquiagem e sente o cabo da faca ao guardar o estojo. Sai, enfim, no décimo terceiro.

- Bom dia – fala jogando a bolsa em cima da mesa.

A sala estava cheia, mas ninguém falou nada. Uma voz tímida e com ares de reprovação:

- Como pode voltar aqui de novo?

Ela começa a trabalhar, mas não consegue se concentrar. Passa por trás dela seu patrão, o doutor Varella. No seu ouvido ele fala para ela ir à sala dele.

Quando ela entra na sala, ele vira um porta retrato da sua mulher com seus filhos. Ela, parada na porta, pergunta o que houve.

Ele se levanta e começa a caminhar na sua direção.

- Eu só quero seu bem... Você acha que... Arrh...

A fala é entrecortada por um grito grave e com um esgar ele cai desfalecido. Com a mão no peito, em cima do coração, ele fixa o olhar nela. Ela passa por ele e desvira o retrato. Abaixa e fecha suas pálpebras.

No meio de um palavrório ouve-se o para-médico perguntar se ele fazia exames do coração com frequência e se era hipertenso.

As vozes vão ficando inaudíveis. O silêncio pinta de branco seu vestido rasgado.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Tudo em vão

Eu não preciso pescar os peixes que se ofertam ao meu anzol. Lançam-se ao meu poder como se estivessem encantados. Podem estar. Nem sei. No caminho para casa encontro as mariposas que pousam no fundo do meu corpo. São dores de viver sem a certeza de nada. Meu coração se fecha e não quer mais bater. Quer pousar noutros corpos como as mariposas que pousam em mim. Tento reanimá-lo:

- Veja aquela moça! Veja aquele rapaz! Veja aquela criança! Veja aquele velho!

Ele me responde sem ritmo, quase parando:

O que vês é uma reflexão... Sombra em vão, que em você aos poucos se vai.

sábado, 31 de outubro de 2009

Palavras polinizadas

Eu queria que meus gestos sublimassem no espaço profundo do seu entendimento. Não faço discurso demagogo. Eu perdôo, mas não esqueço. Sofro com os olhos colados na foto que chora. Eu não perco a poesia. Não vejo só a sua forma, só a superfície. Vejo o amor, numa caneca de chá! Vejo a pedra cortar com dor os meus preconceitos. Minha sombra quer dançar:

- Podes ir, mas eu não vou.

Louvo-te e clamo-te. Os despojos do seu corpo residem em mim como em uma lápide do São João Batista.

Choro no fim do poema.

domingo, 6 de setembro de 2009

Primaveras casuais

"(...) vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação (...)”.

Belchior


Ah! Que saudade que eu tenho de Eulália... Como era graciosa em suas formas ainda pouco reveladas naqueles vestidos de flores minúsculas. Sua aura cândida de menina interiorana era fronteiriça. Seu perfume de alfazema causava-me frêmitos da flor da idade. Quando ia passar os finais de semana em São Luiz do Paraitinga ela me fazia companhia. Sua avó estendia a roupa no quintal e entre os lençóis ao vento brincávamos de esconde-esconde. Ela era bem mais nova que eu, mas isso não era empecilho para nossas brincadeiras. Nadávamos no Paraibuna...

Agora que bato a teclas da máquina de escrever lembro da sua meninice que eu vi desaparecer. No dia em que ela fez anos dei-lhe um livrinho do Monteiro Lobato. Ela leu e releu e depois pediu mais um. No dia em que cheguei com o outro livro ela estava super ansiosa e nem queria saber de brincar, só de ler. Pior do que isso: não queria saber de mim! Levantei o livro acima da minha cabeça e por minutos deixei-a pulando em volta. Depois deixei pender os braços. Isso sempre se repetia. Um dia propus uma troca: ela ganhava os presentes, em troca eu tocava-lhe os lábios, os cabelos - confesso que havia nisso um prazer que na época eu considerava o maior de todos - e ela concordou.
Todo fim de semana era um presente e, enquanto ela lia ou se maquilava ou escrevia ou comia, eu deslizava delicadamente a mão pelos seus cabelos, pela sua boca, chegava a passar - sem que ela percebesse - pelos seus peitos e rapidamente subia até sua face.

No dia do meu aniversário docemente escorreguei a mão ao longo de seu tronco, sentindo a maciez de sua pele de moça nova - e como se conhecesse bem aquele caminho coloquei a mão sobre seu sexo, vi nitidamente o momento em que ela interrompeu a leitura. Paralisou-se - e enrijecendo meus dedos, definindo meu afago, sentir abrir aquela flor oculta, desnudando completamente o mistério da natureza. Subi a mão, voltando a passear livremente pelo seu talhe. Com uma mão acariciava seus olhos e com a outra segurava-lhe pelas costas. Venci-a com o poder do meu carinho.

Espaçadamente ela deu um grito que se assemelhava a um riso moço que ressoava no vento. Era a música do momento.

Amei-a. Numa única fusão de corolas decepadas no auge do seu esplendor descobri o que era o amor...

Dizer que nunca mais a vi seria exagero, mas a Eulália dos tenros anos e pudores morreu para sempre. Numa única florada senti o seu perfume misturar-se ao meu e sumir nas primaveras dos anos.

domingo, 14 de junho de 2009

Magô e o outro mundo

Magô tem oito anos e sonha em conhecer outro mundo. Esse daqui ela já se cansou, antes mesmo de desbravar. É poluição, gente mal educada, violência, problemas, problemas e... problemas. No seu colégio ela deixa os professores loucos com as suas perguntas mirabolantes.

- Em outro mundo faz frio? Acha que eu devo levar casaco o ir de biquíni? E a comida? Já vi astronauta com uns tubinhos de comida prática, mas será que lá eu vou sentir fome? E sede? A água vai congelar assim que eu atravessar o portal desse mundo ou vai evaporar?

Ela não dava tempo para respostas e uma ia atropelando a outra, de tal modo que quando o professor pensava em responder a primeira ela já queria saber da última. Conseqüência disso: ninguém solucionava suas dúvidas e elas iam crescendo cada vez mais. Deram a ela a sugestão de anotá-las. Mas uma atrapalhava a outra e não saia nada no papel. Seus amigos não conseguiam brincar com ela, pois toda vez em que se aproximavam ela dizia que estava se preparando para a partida.

Um dia na saída da aula ela correu para encontrar com a sua mãe, do outro lado da rua, mas no meio do caminho ela desapareceu. Surgiu num lugar diferente, úmido, rugoso.

E ela meio tonta nem perguntou onde estava e já começou a comemorar o seu teletransporte. Viu alguma coisa no escuro.

-Aurt rourew treserhy ... Câmbio?

- Que língua é essa?

- Você fala minha língua? Que bom. Facilita um pouco. Então, vamos passear pelo mundo outro que agora e meu também. Vamos!

Puxou o ser pela mão a correu por um espaço apertadinho. Procurou um raiozinho de luz que fosse, mas não encontrou. Tudo escuro e frio. Frio. Pôde vivenciar todas as suas perguntas. – 

Onde estão as cores desse mundo? Qual mundo é? O da Lua, o do centro de Plutão? Já sei: o dos anéis de Saturno!

Tirando uma capa que lhe cobria o rosto, o ser se revelou um homem, igualzinho a Magô, com braços, pernas, cabeça e dois olhos que exprimiam uma dúvida sem fim.

- Você é humano?

- Lógico, minha pequena. Como você chegou aqui?

- Não sei, acho que o meu desejo se concretizou, sempre fui louca para mudar de plano. Hoje eu consegui.

O homem piscava com uma serenidade ímpar e, escutando tudo o que Magô dizia, sussurrou:

- Não foi dessa vez.

- Que você disse, indagou Magô.

- Nada não, meu bem.

Passearam por caminhos tortuosos. Volta e meia se encolhiam e ficavam com a impressão de terem os pés molhados. Ela viu uma espécie de rato e nem teve medo.

- Coisas do outro mundo não fazem mal a ninguém, disse como se expressasse a mais profunda certeza do mundo. Desse ou do outro.

Caminharam até um espaço onde um filete de luz ofuscava os olhos dos transeuntes extra-intra-mundanos. Subiram uma escada e quando a emoção ia ganhando força alguém girou uma tampa e gritou que o trabalho havia acabado. O homem subiu rapidamente as escadas e Magô então descobriu que se tratava de um bueiro. Saiu cabisbaixa com a descoberta e quando voltou para casa já era escuro. Na esquina do seu quarteirão viu uma luz que passava de um ponto a outro no céu e teve suas esperanças reavivadas. Mal sabia ela que era a lanterna do seu pai que quase morreu de preocupação e, apavorado com a situação, saiu a sua procura.